Por que os atletas olímpicos mordem suas medalhas?
Já se perguntou por que os atletas olímpicos mordem suas medalhas? É uma cena curiosa que se tornou um verdadeiro marco nas celebrações de vitória dos Jogos.
Os competidores sobem ao pódio, recebem suas condecorações e, quase por instinto, levam o disco brilhante à boca e dão uma mordida. Essa atitude não se restringe apenas às Olimpíadas e pode ser vista em vários outros grandes eventos esportivos, desde partidas da Premier League até os torneios de Grand Slam no tênis.
Embora pareça ancestral, a tradição não é tão antiga quanto os próprios Jogos Olímpicos, tendo surgido há algumas décadas. Um dos primeiros registros notáveis aconteceu no Campeonato Mundial de 1991, em Tóquio. Na ocasião, a equipe britânica de revezamento 4x100 metros posou com o ouro entre os dentes após cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. A partir daí, o gesto ganhou o mundo.
Grandes nomes do esporte já aderiram ao ritual. Atletas lendários como o velocista Usain Bolt e o nadador Michael Phelps foram fotografados incontáveis vezes mordendo suas medalhas douradas. Mais recentemente, o saltador ornamental britânico Tom Daley repetiu o gesto após conquistar o ouro nos Jogos de Tóquio 2020.
Mas qual é o verdadeiro motivo para isso? Ao contrário do que muitos pensam, ninguém está testando a pureza do metal. As medalhas de ouro olímpicas não são feitas de ouro maciço; na verdade, consistem majoritariamente em prata com apenas um revestimento superficial de ouro. A resposta real é bem mais simples.
Segundo David Wallechinsky, presidente da Sociedade Internacional de Historiadores Olímpicos, o hábito existe principalmente por causa da imprensa. Em entrevista à CNN, ele explicou que morder a medalha virou uma obsessão dos fotógrafos, que enxergam na cena uma foto icônica e comercializável, algo que os competidores provavelmente não fariam de forma espontânea.
Com o passar dos anos, o pedido insistente dos fotógrafos transformou-se em uma tradição que os próprios atletas passaram a adotar com entusiasmo.
Existe também uma camada psicológica nesse comportamento. Frank Farley, professor da Universidade Temple e ex-presidente da Associação Americana de Psicologia, aponta que morder a medalha ajuda o atleta a se apropriar fisicamente da sua conquista, criando uma forte conexão emocional com o momento de glória.
Além disso, a força da cultura esportiva faz com que os vencedores queiram participar do ritual para se sentirem parte de um grupo. Tornou-se um elemento esperado da celebração, unindo esportistas de várias modalidades e nacionalidades.
Contudo, a brincadeira pode ter riscos. Nos Jogos de Inverno de Vancouver, em 2010, o atleta de luge alemão David Moeller acabou quebrando um dente ao posar para os fotógrafos com sua medalha de prata. Ele só foi descobrir o estrago mais tarde, durante o jantar.
Diante disso, os organizadores das Olimpíadas de Tóquio 2020 chegaram a publicar um aviso bem-humorado lembrando que as medalhas eram fabricadas a partir de eletrônicos reciclados doados pela população e que, por isso, não precisavam ser mordidas — embora soubessem que os atletas continuariam fazendo isso.
Da próxima vez que assistir a uma cerimônia de premiação, lembre-se de que a mordida na medalha vai muito além de um mero hábito curioso. Trata-se do clique perfeito para a imprensa, de um instante de triunfo pessoal e de uma parte viva do folclore esportivo moderno.