Cinco anos atrás, a Arábia Saudita surpreendeu o mundo com uma proposta que parecia ter saído diretamente de um filme de ficção científica. O plano era construir "The Line" (A Linha), uma megacidade linear e ultramoderna rasgando o deserto, com promessas de tecnologias disruptivas e conclusão prevista para 2030.
O projeto é o carro-chefe da iniciativa Vision 2030, gerido pela estatal Neom. A ideia original era grandiosa: uma estrutura de 170 quilômetros de extensão e quase 500 metros de altura, cercada por espelhos. O conceito buscava eliminar ruas, carros e emissões de carbono, criando um ambiente urbano movido 100% por energia renovável.
A promessa era de que nove milhões de pessoas pudessem viver em uma faixa estreita, com todos os serviços essenciais acessíveis em poucos minutos e um sistema de transporte de alta velocidade. No entanto, a realidade financeira começou a bater à porta.
O orçamento, inicialmente previsto em 1,6 trilhão de dólares, saltou para estimativas de 4,5 trilhões, conforme dados do Financial Times. O cenário se agravou com a desvalorização do barril de petróleo, que caiu drasticamente, reduzindo o fluxo de caixa necessário para bancar tamanha ambição.
No final de 2025, autoridades sauditas admitiram publicamente que os gastos foram acelerados demais, resultando em déficits preocupantes. Como consequência, a construção de The Line foi paralisada. Nos bastidores, fala-se em um corte drástico no projeto original ou até mesmo no abandono da ideia de uma cidade residencial para milhões, possivelmente redirecionando o espaço para polos de inteligência artificial e centros de processamento de dados.
Embora o cronograma esteja sob forte ceticismo e o progresso das obras tenha se mostrado lento, o governo saudita ainda tenta manter a relevância do projeto. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman ainda enxerga na Neom uma forma estratégica de aliviar a densidade populacional de centros como Riad, à medida que a população do país ultrapassa os 35 milhões.
O foco atual parece estar migrando para a tecnologia. A criação da iniciativa HUMAIN, voltada para IA e data centers, mostra que a Arábia Saudita está tentando ajustar suas prioridades para algo mais viável no curto prazo.
Mesmo com as incertezas em torno de The Line, o país segue em um processo de transformação social intensa, flexibilizando regras e investindo no turismo internacional. Tudo isso faz parte de uma preparação estratégica para eventos globais de grande porte, como a Copa do Mundo de 2034, onde o país pretende se apresentar ao mundo como uma potência moderna e diversificada.