Em 1973, o longa-metragem distópico "No Mundo de 2020" (Soylent Green) chegou aos cinemas com uma visão perturbadora sobre o futuro. Baseado no livro de Harry Harrison, o filme pintou um 2022 marcado pela superpopulação, colapso climático, abismos sociais profundos e governos marionetes de megacorporações. O protagonista, interpretado por Charlton Heston, é um detetive que tenta desvendar mistérios em uma Nova York caótica, habitada por cerca de 40 milhões de pessoas.
Ao compararmos aquela ficção com o nosso presente, é impossível não notar que algumas das previsões mais sombrias, como a crise ambiental e a desigualdade extrema, possuem paralelos assustadores com a realidade atual. Felizmente, nem tudo se concretizou: os índices de violência e criminalidade, por exemplo, não atingiram os níveis extremos retratados nas telas.
Hollywood sempre teve um fascínio pelo amanhã. Clássicos como "Planeta dos Macacos" e até a visão otimista de "Os Jetsons" tentaram decifrar o destino da humanidade. O próprio "Planeta dos Macacos", de 1972, sugeria que uma pandemia devastaria o mundo até 1991, um palpite que, guardadas as devidas proporções, ecoou de forma inquietante diante das crises sanitárias globais que enfrentamos nas décadas seguintes.
O ponto mais lembrado de "No Mundo de 2020", contudo, é a escassez alimentar. Na trama, o consumo desenfreado tornou produtos frescos, como vegetais e carne, itens de luxo inalcançáveis para a maioria. A solução encontrada pelo governo foi o Soylent Green, um alimento processado supostamente feito de plâncton. Curiosamente, em 2013, um substituto de refeição real chamado Soylent surgiu no mercado. Embora a versão moderna tenha nascido com o objetivo de simplificar a nutrição e não de esconder segredos terríveis, a coincidência do nome e a busca por alternativas alimentares rápidas geraram diversas comparações com o filme.
O cenário urbano do longa também reflete preocupações atuais. A visão de uma metrópole com infraestrutura saturada, habitações precárias e uma elite que se isola em condomínios de altíssima segurança antecipou muito do que vemos hoje nas grandes cidades. A degradação do meio ambiente, outro pilar da narrativa, descreve um mundo onde o calor é tão intenso que produtos básicos como a margarina não mantêm a forma — um cenário que, infelizmente, soa cada vez menos como fantasia e mais como uma advertência sobre o aquecimento global.
Outros temas foram abordados com uma precisão quase profética, como a morte assistida, hoje debatida e legalizada em diversos países, e a ascensão dos videogames como válvula de escape. O filme chegou a exibir o jogo Computer Space, precursor dos arcades, reconhecendo que a tecnologia seria o refúgio digital preferido da humanidade.
Embora não estejamos vivendo o colapso absoluto retratado na obra de 1973, "No Mundo de 2020" continua relevante. Ele não é apenas entretenimento, mas um espelho das ansiedades coletivas de sua época e um lembrete das consequências de ignorar danos ambientais e injustiças sociais. Olhar para essas visões distópicas de décadas atrás nos ajuda a refletir: o futuro não é um destino selado, mas o resultado das decisões que tomamos hoje.